Já repararam na maneira como as pessoas usam os telemóveis? Aquilo que poderia ser um apetrecho de trabalho, de lazer, uma coisa que facilitasse a vida, torna-se para muitos (os que estão à volta) um martírio. O que vale é algumas das vezes o incómodo dá lugar à anedota.
Sem querer ser exaustivo (mas sem abandonar a ideia de voltar à carga) aqui deixo o que tenho visto/ouvido por aí.
O empreiteiro - Normalmente tem sotaque "lá de chima" e todos temos de ficar a saber que lhe telefonaram. Vai para as filas dos bancos em dia de enchente e põe a música daquilo em 80 decibéis. Normalmente é uma melodia do Quim Barreiros; à falta deste também não desdenha uma musiquita do conjunto Maria Albertina. Fala em altos berros, "Sim! SIIIM! C'um carago!. ISSO MESMO! SIM !!! SIMM!! SIIIIIIMMM !!! DIZ-ME A ESSE GAJO QUE TÁ TUDO TRATADO". Só comprou o télélé pra mostrar que tem massas, com a berraria que faz não precisava de tecnologia, ouvem-no nem que seja lá no raio que o parta.
O esquecido - Esqueceu-se de desligar o sonoro e é sempre apanhado a meio do filme. Compra o bilhete dele e o da miúda e mais um balde de pipocas e é vê-los embevecidos,no Mélius, de lagriminha ao canto do olho, a empaturrarem-se de milho assado enquanto no écran a heroína agoniza nas mãos de um vírus qualquer, fruto de experiências militares dos E.U.A. De repente, aquela porra começa em altos berros a dar a música da "Guerra das Estrelas" (em tons polifónicos) e o gajo, com o susto, joga as pipocas por cima dos vizinhos de cadeira enquanto a namorada se engasga magistralmente com a garrafa de água da Serra da Estrela.
O repórter - Tem um topo de gama. Enquanto uma máquina fotográfica digital pode custar pouco mais duns vinte contitos (100 €), o estróina prefere pagar o triplo por um telemóvel que só serve pra tirar retratos. E tira bonecos de tudo o que é coisa. Também, com o que aquilo lhe custou ficou sem cheta prós carregamentos...
O/A dactilógrafo/a - Não falha uma tecla, embora os seus dedos sejam mais rápidos que o Lucky Luke. Farta-se de receber e mandar mensagens. Para abreviar troca os esses e os jotas por xis e nem repara que "xantar" tem exactamente a mesma quantidade de caracteres que "jantar". Também não aprendeu que se escreve "você" e não "voçê". Noventa por cento do seu tempo livre é passado a mandar mensagens. Diz-me um amigo engenheiro electroténico que a Nokia, pensando neste género de utilizador, quer mandar cá pra fora telemóveis sem som, só com mensagem.
O patriota - Capaz de pôr qualquer polícia que se preze em sentido. Orgulha-se tanto do seu país que, desgostoso por o Lidl não ter papel higiénico verde/rubro, leva o patriotismo à extrema parolice de usar o hino como toque.
A universitária - Mal a coisa toca mete-a junto à orelha, e sacode a cabeça que é pró cabelo ficar por cima. Põe a cabeça de lado, fazendo daquilo almofada; depois de ter ouvido durante uns trinta segundos, levanta a mão livre à altura do ombro, aberta com os dedos para a frente e a palma para cima como se segurasse uma bandeja, e começa a sua resposta sempre, sempre, sempre da mesma maneira: "Então é assim..."
O dealer - Só poucos sabem o seu número. Usa o modo vibratório que é pra ninguém dar por ele no café. Atende e fala em voz baixa, pondo uma mão à frente da boca quando fala. Como o telemóvel não consegue desligá-lo do que o rodeia, vai sempre olhando à volta enquanto fala. Nunca marca, apenas recebe (estes também podiam dispensar as teclas, com o que poupavam sempre se comprava mais uma dosezinha...).
O irmão dos PALOP- Ó MEU!! TU TÁ BOM? OLHA: MINÁ TUTUCA BATUKÉ, PÁ! SIM!! JMINEU PRÓ TUTÁ BULITÉ, PÁ! AH AH AH!
domingo, 23 de janeiro de 2005
sábado, 15 de janeiro de 2005
TCHA TCHAAAMMM!!! COM SIC O CRIME LAVA AINDA MAIS BRANCO!!
Não fôra a triste conclusão de que o crime compensa, e a coisa não passava duma anedota, desta vez nada publicitada pela imprensa vista/falada que, quase silenciosamente, meteu o rabinho entre as pernas e tenta fazer-se esquecida do necessário pedido de desculpas aos que diariamente vai envenenando ao confundir dever profissional e vontade de informar com histeria e gulosice de sensacionalismo.
Vamos lá por partes:
Parte I da Paródia - Um recluso condenado por triplo homicído sai em liberdade precária e está-se nas tintas pra voltar.
Parte II da Paródia - Como o crime compensa e a malta até alcança projecção social, toca de entrevistas por telemóvel daqui, entrvistas por telemóvel dali; o homem tem uma arma e quatro balas. Os primeiros três que se aproximarem vão desta pra melhor e a quarta bala é pra ele ir atrás, não queiram eles arrepiar caminho. É à hora do almoço, é ao jantar, é ao deitar, e as entrevistas com o ex-recluso-agora-evadido (sempre por telemóvel) prometem ser a nova ração diária de novela pró pagode.
Parte III da Paródia - Afinal a montanha pariu um rato: o ex-recluso-agora-vedeta é entrevistado em frente às câmaras de tv, diz que não tem nem balas nem arma, e muito menos telélé. Pronto, ficámos a saber que se fizeram passar pelo coitado, o que é crime, até à vista da Constituição desta República que está cada vez mais cegueta.
Conclusões (e interrogações):
a) o crime compensa; um gajo leva umas facadas dum tipo qualquer, e este é que vai ficar conhecido, que isto de dar facadas dá "sainete".
b) o crime continua a compensar; os tipos da tv estão-se nas tintas prá verdade, o que interessa é ser o primeiro a passar, seja lá qual fôr a "bojarda". Da próxima vez sou eu que telefono a dizer que sou o não-sei-quantos-das-sapatilhas e que tenho meia dúzia de balas, sendo que a última é pra um tipo qualquer das notícias (eh eh, vamos lá ver se passam as coisas como eu vou querer ou não passam).
c) o crime compensa, continua a compensar, e com estes "jornalistas" compensa ainda mais. Já um gajo que dá umas facaditas por aí não pode estar descansado, aparece um tipo da sic a entrevistar. Se revelar as fontes de informação é contra a ética do repórter, o que será entrevistar um assassino que anda a monte?
Vamos lá por partes:
Parte I da Paródia - Um recluso condenado por triplo homicído sai em liberdade precária e está-se nas tintas pra voltar.
Parte II da Paródia - Como o crime compensa e a malta até alcança projecção social, toca de entrevistas por telemóvel daqui, entrvistas por telemóvel dali; o homem tem uma arma e quatro balas. Os primeiros três que se aproximarem vão desta pra melhor e a quarta bala é pra ele ir atrás, não queiram eles arrepiar caminho. É à hora do almoço, é ao jantar, é ao deitar, e as entrevistas com o ex-recluso-agora-evadido (sempre por telemóvel) prometem ser a nova ração diária de novela pró pagode.
Parte III da Paródia - Afinal a montanha pariu um rato: o ex-recluso-agora-vedeta é entrevistado em frente às câmaras de tv, diz que não tem nem balas nem arma, e muito menos telélé. Pronto, ficámos a saber que se fizeram passar pelo coitado, o que é crime, até à vista da Constituição desta República que está cada vez mais cegueta.
Conclusões (e interrogações):
a) o crime compensa; um gajo leva umas facadas dum tipo qualquer, e este é que vai ficar conhecido, que isto de dar facadas dá "sainete".
b) o crime continua a compensar; os tipos da tv estão-se nas tintas prá verdade, o que interessa é ser o primeiro a passar, seja lá qual fôr a "bojarda". Da próxima vez sou eu que telefono a dizer que sou o não-sei-quantos-das-sapatilhas e que tenho meia dúzia de balas, sendo que a última é pra um tipo qualquer das notícias (eh eh, vamos lá ver se passam as coisas como eu vou querer ou não passam).
c) o crime compensa, continua a compensar, e com estes "jornalistas" compensa ainda mais. Já um gajo que dá umas facaditas por aí não pode estar descansado, aparece um tipo da sic a entrevistar. Se revelar as fontes de informação é contra a ética do repórter, o que será entrevistar um assassino que anda a monte?
sexta-feira, 7 de janeiro de 2005
Será imaginação? Ou alucinação?
Tentei imaginar um país, com os exemplos que tenho à minha volta, mas só consegui uma caricatura.
Tentei imaginar um governante sério (e a sério) e vi um tipo fugir pra bem longe, tratando de salvar a sua imagem mais um pacote de notas de 500 €.
Tentei imaginar um sistema democrático e apenas vi que o rato que abandonou o barco quando este já ía bem cheio de água, lá pôs o afilhado, à revelia do que a população quisesse.
Começou a faltar-me a imaginação mas mesmo assim ainda deu para ver um indivíduo de cara descoberta, entrar pelas casas adentro e, com a desculpa de que os cofres do rei estavam rotos, começar a levar o que quem trabalha amealhara para a velhice.
Mesmo assim ainda fiz um esforço pra imaginar uma réstea de vontade popular, um sítio onde houvesse um parlamento, e os ministros ali tivessem de prestar contas pela sua incompetência. Mas logo percebi que os incompetentes se "marimbavam" para lá ir, por mais que fossem chamados à responsabilidade.
Suando pelo esforço imaginativo, tentei imaginar um nome, um adjectivo, fosse o que fosse pra dar às imagens que goravam a minha vontade. E apenas consegui uma interrogação: é possível que de há trinta anos para cá as pessoas tenham perdido a capacidade (ou coragem?) de tratar as coisas pelos nomes?
Quem é que tem medo de pronunciar a palavra fascismo?
Tentei imaginar um governante sério (e a sério) e vi um tipo fugir pra bem longe, tratando de salvar a sua imagem mais um pacote de notas de 500 €.
Tentei imaginar um sistema democrático e apenas vi que o rato que abandonou o barco quando este já ía bem cheio de água, lá pôs o afilhado, à revelia do que a população quisesse.
Começou a faltar-me a imaginação mas mesmo assim ainda deu para ver um indivíduo de cara descoberta, entrar pelas casas adentro e, com a desculpa de que os cofres do rei estavam rotos, começar a levar o que quem trabalha amealhara para a velhice.
Mesmo assim ainda fiz um esforço pra imaginar uma réstea de vontade popular, um sítio onde houvesse um parlamento, e os ministros ali tivessem de prestar contas pela sua incompetência. Mas logo percebi que os incompetentes se "marimbavam" para lá ir, por mais que fossem chamados à responsabilidade.
Suando pelo esforço imaginativo, tentei imaginar um nome, um adjectivo, fosse o que fosse pra dar às imagens que goravam a minha vontade. E apenas consegui uma interrogação: é possível que de há trinta anos para cá as pessoas tenham perdido a capacidade (ou coragem?) de tratar as coisas pelos nomes?
Quem é que tem medo de pronunciar a palavra fascismo?
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