Cada vez que ali passo, e não são poucas, lembro-me do meu barbeiro, o Galaio. Lembram-se do Galaio? Ali ao pé do Caravela, quase em frente à Zona Azul, um pouco mais acima.
A barbearia do Galaio era isso mesmo, uma barbearia. E o "isso mesmo" implicava um sítio onde se ía para dar dois dedos de conversa, combinar a próxima pescaria, às vezes até se ía lá pra cortar o cabelo, ou fazer a barba. O Galaio já cá não está deve haver uns quinze anos, e quando se foi já não era o meu barbeiro havia quase outro tanto, mas eu ainda passava por lá para "dar de vaia".
À entrada a porta tinha logo um poial onde eu me sentava a ler o "Falcão", ou o "Condor". Às vezes o "Mundo de Aventuras" que saía à quarta-feira e custava 25 tostões. A sala teria uns dois metros e pouco de largura por uns seis ou sete de comprimento; duas cadeiras de barbeiro, cada uma com o seu espelho. Tem piada que todas as cadeiras de barbeiro que tenho visto têm o mesmo monograma na pèzeira. Uma mesinha aparafusada na parede junto a cada espelho e, muito alto para a idade que eu tinha, uma pequena prateleira de vidro com meia dúzia de coisitas. Uma dessas coisitas era o Pescador. Um daqueles bonequitos com uns 10 cm, apoiados em duas perninhas de arame e segurando um outro arame que fazia de cana de pesca, que depois enrolava para debaixo da prateleira, deixando-o em equilíbrio e dançando um vai-e-vem teimoso quando a gente lhe dava um toque.
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A minha mãe dava-me dez tostões (agora chamar-se-iam meio cêntimo) e mandava-me para a barbearia do sr. Galaio, pouco depois de almoço que era para quando ele abrisse às quatro da tarde eu já ter vez marcada. Enquanto esperava, os meus sete anos ficavam fascinados pelas letras da "Colchoaria de Lisboa" pintadas a azul sobre a parede amarela do que é agora a Zona Azul, e pela almofada pendurada por cima da porta, que eu via a rodar com a brisa. Por mais que olhasse para os muitos automóveis que por ali passavam (um de dez em dez minutos), o meu olhar caía sempre teimosamente nas letras. Ainda hoje não consigo perceber porquê!
Às três da tarde abria a loja por baixo da barbearia, e eu apressava-me a comprar um pacote de bolachas Maria. Ainda têm o mesmo desenho. Enquanto esperava, trincava as bolachas com um ritual que ainda uso às vezes: começava por comer todo o friso à volta, deixando-a mais pequena mas impecavelmente circular; depois tentava que quatro dentadas ficassem distribuidas simetricamente...
Até que chegassem as qutro da tarde.
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Para a malta do meu tamanho havia "a Tábua". A Tábua era nada mais que uma simples tábua com duas travessas no lado de baixo, para não deslizar nos braços da cadeira. Servia para que a malta de palmo e meio ficasse mais alta (ou menos pequena, se assim quiserem) a fim do Galaio conseguir cortar-nos a trunfa. Sagrado dia em que o Galaio foi buscar a tábua e, ao chegar ao pé da cadeira "Ná! Tu já não precisas da tábua." E eu esticava-me na cadeira, mais emproado que um fuso, porque já me cortavam o cabelo sem precisar de me sentar na tábua.
Corte de homem implicava que o cabelo na nuca ficasse bem curtinho, e nisso o Galaio aprimorava-se.
As patilhas, depois de ensaboadas , sempre com água fria, eram acertadas à navalha. Ainda dava duas ou três tesouradas e vinha a pergunta fundamental: "Queres que faça uma poupinha?" A poupinha, celebrizada duas décadas antes pelo Elvis, voltara a usar-se. "Sim, faça a poupa". E o Galaio, com uma paciência maior que o castelo lá passava um bocadinho de brilhantina no pente e ajeitava uma "poupinha" à maneira.
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São pedaços da vida que não quero deitar fora. Quanto daria pra ir buscar um pacote de bolachas Maria e sentar-me à porta do Galaio, à espera das quatro da tarde...
quinta-feira, 16 de setembro de 2004
quarta-feira, 15 de setembro de 2004
Visconde, regressa que estás perdoado.
Não sei por que peço desculpa, mas mesmo assim: Desculpem, mas o Polis arrasou sítos da cidade que mereciam uma solução bem diferente.
Sim, já sei que me vão cair em cima e por aí abaixo, mas não retiro nem uma vírgula, e repito: o Polis arrasou (ARRASOU) sítios da cidade que mereciam e podiam ter tido solução bem diferente. Sei perfeitamente, e digo-o bem alto a toda a gente, que a zona da ermida de Santo André está impecável. O parque da cidade promete, fazia falta. Mas a coberto disso quanta barbaridade. Bar-ba-ri-da-de!!!
Sou alentejano, e como tal intitulo-me, e a todos os meus conterrâneos, de afilhado do sol e irmão da planície (desculpem o bocadinho de poesia...), pelo que me sinto mal quando não vejo um bocadinho de horizonte. Não posso deixar de reconhecer que passo na Miguel Fernandes e olho em volta e nada me tolda a visão. Pudera, uma área completamente aberta onde me chego a sentir perdido, não fosse a marrecada "futurista" ali posta; e quem não gostar é porque está contra o progresso e a renovação de Beja, que essa coisa de descaracterização da avenida é boca de reaccionários a soldo de interesses retrógrados, felizmente perfeitamente identificados. Não me venham dizer que o que ali está é bem feito, o pior cego não é o que não vê, é o que não quer ver. O parque de estacionamento fazia falta? Fazia.,pois então. Mas talvez se anteriormente se tivesse procurado soluções alternativas a coisa não chegasse ao ponto a que chegou. Não duvido que a Câmara quer solucionar o(s) problema(s) de estacionamento, mas talvez a solução passe por algo mais do que o condicionamento (pagamento). Cada vez mais a cidade se expande mas cada vez mais as instituições (bancos, repartições públicas) investem "dentro das muralhas", com o consequente afluxo de viaturas. Não terão os nossos edis uma palavra a dizer-lhes sobre isso?
Sim, já sei que me vão cair em cima e por aí abaixo, mas não retiro nem uma vírgula, e repito: o Polis arrasou (ARRASOU) sítios da cidade que mereciam e podiam ter tido solução bem diferente. Sei perfeitamente, e digo-o bem alto a toda a gente, que a zona da ermida de Santo André está impecável. O parque da cidade promete, fazia falta. Mas a coberto disso quanta barbaridade. Bar-ba-ri-da-de!!!
Sou alentejano, e como tal intitulo-me, e a todos os meus conterrâneos, de afilhado do sol e irmão da planície (desculpem o bocadinho de poesia...), pelo que me sinto mal quando não vejo um bocadinho de horizonte. Não posso deixar de reconhecer que passo na Miguel Fernandes e olho em volta e nada me tolda a visão. Pudera, uma área completamente aberta onde me chego a sentir perdido, não fosse a marrecada "futurista" ali posta; e quem não gostar é porque está contra o progresso e a renovação de Beja, que essa coisa de descaracterização da avenida é boca de reaccionários a soldo de interesses retrógrados, felizmente perfeitamente identificados. Não me venham dizer que o que ali está é bem feito, o pior cego não é o que não vê, é o que não quer ver. O parque de estacionamento fazia falta? Fazia.,pois então. Mas talvez se anteriormente se tivesse procurado soluções alternativas a coisa não chegasse ao ponto a que chegou. Não duvido que a Câmara quer solucionar o(s) problema(s) de estacionamento, mas talvez a solução passe por algo mais do que o condicionamento (pagamento). Cada vez mais a cidade se expande mas cada vez mais as instituições (bancos, repartições públicas) investem "dentro das muralhas", com o consequente afluxo de viaturas. Não terão os nossos edis uma palavra a dizer-lhes sobre isso?
O tão célebre assassinato do jardim de bacalhau é isso mesmo: um assassinato. Vamos deixar as árvores crescer? Vamos! Os velhotes depois continuarão a vir para ali como há décadas! SIM! Mas só posso chegar à conclusão de que quem riscou o projecto no papel não é daqui, nada percebe duma cidade onde o calor passa os quarenta e muitos, ou então o Barnabé também tem um lobby com os gajos das águas carasona, é que até a bica dali tiraram. A Câmara vai pagar subsídio de gasosa aos velhotes?
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Pedra a pedra, tijolo a tijolo, vamos perdendo o que nos resta. É que Beja também já teve uma capela como a de Santa Maria Madalena de Ferreira do Alentejo, é que o Convento da Conceição (actual Museu Regional) cobria uma área muito maior, as portas de Aljustrel, Mértola, Évora e Avis foram mutiladas de forma assassina na segunda metade do séc. XIX., e nem falo do palácio dos Duques de Beja. Tudo em nome do progresso e crescimento urbano. Pela mão do sr. visconde de Ribeira Brava...
Desculpem o desabafo, mas tinha mesmo de fazer a minha catarse. Só que ainda há tanto pra dizer....
sábado, 11 de setembro de 2004
AGRADECIMENTO
Por só agora se sentir com pachorra pra tali, vem o managêro desta casa apresentar ó pessoali da brocosfera os devidos respêtos e agradcer os votos e recomendações que lh'apresentaram. Já agora, taméin agradeço ós que ainda nã prantaram naqui os butes, quié pra quandaqui vierem e taméim desejarem bons votos ê cá nã me esqueceri deles. Ficam todos desde já agradcidos.
Mais informo que por modo da escrevinhação, a assombra da azenhêra vai aumentar o capital social, vai ter mais um sóiço (os sóiços que sã sóiços podem sassentari, os sóiços que nã sã sóiços é favor tirarem n'as nalgas das cadêras que são prós que pagam n'as cotas).
Mais informo que por modo da escrevinhação, a assombra da azenhêra vai aumentar o capital social, vai ter mais um sóiço (os sóiços que sã sóiços podem sassentari, os sóiços que nã sã sóiços é favor tirarem n'as nalgas das cadêras que são prós que pagam n'as cotas).
Ahhh! Rouxinol
Estou com uma boa disposição maior que o castelo, a sério que estou. E a razão é bem simples: vi os "Ídolos" do princípio ao fim.
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Gosto de ver as betinhas; a mamã disse-lhe que cantava bem, embora no coro lá da paróquia o senhor padre ainda se vá conseguindo esquivar: "Sabe, D. Prantilhana, a sua filha tem boa voz, mas sabe como é, hâââ ...a carrinha da paróquia está sobrelotada e depois hâââ a rapariga não tem como ir às actuações, tá a ver? Mas lá por isso não deixe de vir aos domingos".
Então a betinha chega lá e : "Venho aqui porque a minha professora de canto diz que estou bastante avançada. E então é assim: vou cantar uma música da Madona mas a música é como eu canto, a Madona é que canta mal".
Pois, então é assim.
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Gosto de ver os queques; o cabelo bem besuntado de gel (ou banha, sabe-se lá; ou então aquilo está mesmo é cheio de sebum a precisar de sabão macaco): " A malta junta-se em casa da Bibi e eu acompanho o CD. E a minha Bitó gosta muito de me ouvir. Então é assim: vou cantar uma canção mas como não sei a letra faço lá lá lá, tá bem?".
Pois, então é assim.
Porra, se é assim deixxem-me ir ali que eu já volto.
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E chegam lá e levam nas trombas (não digo que levam nos cornos porque é feio, mas lá que levam... levam!)
Mas o que me dá vontade de rir, mas a sério que dá, é a maneira convencida daquela gente. Chegam ali quase que mendigando cinco minutos de glória, cinco minutos no écran, apenas cinco minutos e isso vale tudo pra eles. A noção do ridículo desaparece completamente. Gajos que nem pra ganir serviam atiram-se ao júri quando levam a ripada. Tipas que nem vem voz têm pra apregoar carapau de gato, debitam que o professor de canto blá blá o professor de canto blé blé, mal o júri lhes diz que nicles.
E eu gosto, pois então. Cá o pavaroti de chuveiro adora ver aquele pagode levar nas trombas. Mas (e digo-o com sinceridade) estou de acordo. Corram com essa cambada toda.
Já agora: não corram ainda, ponham primeiro o ministro do mar a cantar o "Born to be alive".
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Gosto de ver as betinhas; a mamã disse-lhe que cantava bem, embora no coro lá da paróquia o senhor padre ainda se vá conseguindo esquivar: "Sabe, D. Prantilhana, a sua filha tem boa voz, mas sabe como é, hâââ ...a carrinha da paróquia está sobrelotada e depois hâââ a rapariga não tem como ir às actuações, tá a ver? Mas lá por isso não deixe de vir aos domingos".
Então a betinha chega lá e : "Venho aqui porque a minha professora de canto diz que estou bastante avançada. E então é assim: vou cantar uma música da Madona mas a música é como eu canto, a Madona é que canta mal".
Pois, então é assim.
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Gosto de ver os queques; o cabelo bem besuntado de gel (ou banha, sabe-se lá; ou então aquilo está mesmo é cheio de sebum a precisar de sabão macaco): " A malta junta-se em casa da Bibi e eu acompanho o CD. E a minha Bitó gosta muito de me ouvir. Então é assim: vou cantar uma canção mas como não sei a letra faço lá lá lá, tá bem?".
Pois, então é assim.
Porra, se é assim deixxem-me ir ali que eu já volto.
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E chegam lá e levam nas trombas (não digo que levam nos cornos porque é feio, mas lá que levam... levam!)
Mas o que me dá vontade de rir, mas a sério que dá, é a maneira convencida daquela gente. Chegam ali quase que mendigando cinco minutos de glória, cinco minutos no écran, apenas cinco minutos e isso vale tudo pra eles. A noção do ridículo desaparece completamente. Gajos que nem pra ganir serviam atiram-se ao júri quando levam a ripada. Tipas que nem vem voz têm pra apregoar carapau de gato, debitam que o professor de canto blá blá o professor de canto blé blé, mal o júri lhes diz que nicles.
E eu gosto, pois então. Cá o pavaroti de chuveiro adora ver aquele pagode levar nas trombas. Mas (e digo-o com sinceridade) estou de acordo. Corram com essa cambada toda.
Já agora: não corram ainda, ponham primeiro o ministro do mar a cantar o "Born to be alive".
terça-feira, 31 de agosto de 2004
Memórias
Para que fique claro antes de começar a escrever este post: não nutro qualquer pinga de simpatia pela filosofia dos taliban, bem como também nada de especial tenho a favor ou contra o islão. Nem professo ou detesto o budismo. Sou ateu a 101% e pronto. E que ninguém me venha com a treta de que "Tens de acreditar que há algo superior". Superior sou eu e os que, tal como eu, tratam o seu semelhante com o devido respeito pela simples razão de que ele é isso mesmo: o seu semelhante; ao contrário daqueles que apenas o fazem na mira de subornar um "ser superior" que os leve para "o paraíso".
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Memórias I
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E pronto, posso começar a falar mal dos taliban. É que há uns minutos fui deparar com alguns sites onde se podia ver as estátuas de Buda derrubadas pelo governo taliban. E lembrei-me de conversas onde os meus interlocutores se inflamavam contra o crime de derrubar obras milenares, representantes duma das filosofias mais pacatas e de respeito pelo próximo. Claro que não posso deixar de sentir a mesma repulsa, por essas razões e mais algumas, se calhar até pela razão principal.
Terão sido dinamitadas porque o islão é uma região de fanáticos?
Ou terão sido dinamitadas porque as pedrinhas estavam ali à mão de semear para uma obrazita qualquer (onde é que eu já vi este filme?)?
Ou estavam a fazer sombra?
Não! Não e Não!
Um povo não é um povo porque todos discutem se se deve fazer o Euro2004 ou não.
Um povo não é um povo porque todos falam a mesma língua ou vivem dentro das mesmas fronteiras.
Um povo não é um povo porque usam todos a mesma moeda.
As memórias colectivas são o que faz um povo ser isso mesmo : um povo .
Ao dinamitar as estátuas de Buda, os taliban atingiram um ponto fulcral da memória colectiva dos afegãos, fossem eles islamitas, budistas, cristãos ou lá o que fossem. Ao tirarem-lhe uma parte da sua memória tentaram "encarneirá-los", um povo sem memória não passa de um grande rebanho dócil, que não tem nada que o relembre de si mesmo. E torna-se fácil de "injectar" com seja o que fôr, chame-se a "seringa" Big Brother, Casa dos Famosos, domingo de missa, sábado na sinagoga ou lá o raio que os parta.
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Memórias II
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Um dos episódios mais marcados e marcantes da minha infância, teria eu para aí uns quatro anos, passou-se na antiga Praça Diogo Fernandes, o Jardim de (ou do?) Bacalhau.
Muitos e muitos anos antes da Câmara Municipal nos presentear com aquela gaiola malparida desenhado por vesgos, e mesmo antes de ali haver qualquer quiosque ou esplanada, havia no Jardim de Bacalhau um lago. Baseado num quadrado, saía de cada um dos lados um semicírculo. Toda a volta do lago apresentava, em pedra, um "murinho" que teria para aí palmo e meio de altura.
Ora andava o meu pai a passear-me por ali quando encontrámos um tio meu. Na mira de me porem quietinho enquanto falavam descansadamente, o meu tio apontou para a borda do lago :"Se te sentares aí quietinho, vais ver que isso anda à roda como o carrocel". Santa ingenuidade da infância: ali estive uma eternidade de 15 minutos à espera que o lago girasse. E sempre que por ali passava lá ía correndo sentar-me, porque eu sabia que era dessa vez ... Mas o meu pai ou a minha mãe abalavam comigo sempre um minuto antes de se realizar o encantamento. Deixa estar que para a próxima é que é, e dessa vez vou ficar aqui até à hora do jantar.
Quantos bejenses, mas quantos?, da minha idade ou não, terão locais mágicos como este? A quantos arrancaram os seus "carróceis", pondo lá mamarrachos a coberto da "revitalização" da cidade?
Porque razão dinamitaram os meus budas?
Apetece-me dizer mal deles....
É triste mas é verdade. Apetece-me dizer mal deles. A tristeza não é o que me apetece, o triste (triste triste triste) é a classe de jornalistas (???) que pululam pelas televisões cá da terra, sejam elas públicas ou privadas. Já algum dos amigos que me estão a ler se deu a trabalho de ouvir (mas com ouvidos de ouvir) um telejornal?
Caros amigos e amigas do pêto, se querem ser cultos têm de se dar ao trabalho de saber identificar as várias escolas/estilos de jornalismo que estes canudeiros representam (inventei uma nova: canudeiro=gajo ou gaja que obteve um canudo através duma monumental colecção de cábulas). Vão ver que não custa muito, basta três dias seguidos de telejornal, com a vantagem de ser um curso ministrado à distância, em que vocês escolhem o horário (hora de almoço, hora de jantar, ou antes do xixi-cama). Nem têm de se preocupar com numerus clausus. E tanto podem ir para a pública como para a privada...
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Escola do mazondékéutô?
O dito cujo posta-se com as costas viradas para o objecto (vá lááá... objecto aqui não é isso que estão a pensar), se possível de maneira a que o vento dê do lado contrário ao risco do cabelo (que é pra levantar, porque fica muita beeeemmm).
Como já devem ter percebido, a reportagem começa sempre com um "Estamos aqui junto à ponte...", "Estamos aqui em frente ao parlamento...", "Estamos aqui na Praça da Figueira...".
O gajo deve pensar que a gente não sabe que ele está ali. Ainda estou (aqui) à espera de ver um qualquer miúdo desses do microfone na mão, prantado na Praça do Comércio : "Estamos ali noTerreiro do Paço...", ou então "Como já devem ter visto, estou ali debaixo da 5ª pata do cavalo do D. José...". Caricato...
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Escola do digameçóamim
A menina (nestes casos costuma ser uma) coloca-se estrategicamente à porta do tribunal e no momento em que o arguido, na primeira de 27 sessões para apuramento de responsabilidade, passa por perto, dispara-lhe à queima roupa: "Porque é que deu quatrocentas e vinte e seis facadas na sua sogra?". Repare-se bem: ainda o pobre é apenas acusado, nem se sabe se tem culpas no "cartório", e já a fulaninha está a pôr-lhe a corda à roda do papo...
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Escola do emplastroleãoaliviaqualquerdor também conhecida por voltaFreudketásperdoado
Também costuma ser uma jornalista (???). Normalmente é em casos de presumível corrupção e acontece em corredores de tribunais. A fera amaga-se entre os colegas de profissão, e no momento em que o réu sai da sala de audiências e a porta desta se fecha, tá fêto com ela: não podendo voltar para trás porque a porta se fechou avança pelo corredor enquanto o seu causídico tenta a todo o custo evitar que os predadores lhe mordam as canelas. É então que a dita bicha caçadêra , que tinha estado escondida atrás dos colegas de regabofe, salta para a frente e, de microfone em riste, quer mostrar que estudou Freud e entra numa de psicanálise: "Não lhe dói a consciência?"
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Escola do tenskapôr, tenskapôr, tenskapôr (a grande Hermínia Silva cantava uma paródia à "Casa da Mariquinhas": a Mariquinhas tinha-lhe dado uma colcha para ela pôr na cama mas a Hermínia nunca mais a punha...)
Já o pobre desinfeliz tá farto de responder à mesma coisa da mesma maneira, e o canudêro com aquela coisa quase enfiada na boca do pobre "Mas você disse numa entrevista que... e blá blá..." . A querer meter-lhe coisas na boca, pois então...
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Escola do boaboa!vamuzaverumalquefizemos
Se não é um dos estilos mais importantes do jornalismo televisivo português, então não sei o que diga.
Um gajo pega na camera, e convida um amigo pra carregar com os projectores, mais um ou dois pra pegar no reflector, e aí vamos pra casa da velhota, com o mais fotogénico da pandilha a pegar no micro.
Não vou dizer como é, nesta altura do campeonato basta relatar-vos um caso verídico e vocês topam logo o estilo. Lembram-se do triste caso da ponte de Entre-os-Rios? Quando caíu a ponte e o autocarro cheio de gente foi levado pela correnteza? Pois mal o desastre acontecera e logo uma catrefada de autênticos abutres entrava pelas casas das pessoas a quem a dôr tirava as forças para resistir a qualquer tipo de estupidez. Eis senão que, nem 24 horas passaram do desastre nem tampouco aparecera qualquer vítima ou cadáver, um rucinho de olhos azuis que mais parecia uma osga malparida chega-se ao pé da presumível viúva do motorista do autocarro e escarra-lhe pra cima :"Como é que se sentiu quando ouviu as notícias?".
Não sei bem porquê, mas acho que naquela situação um familiar da mulher deveria ter atirado com uma cadeira aos apêndices cranianos da alimária devolvendo-lhe a pergunta "Diga-me lá vossa excelência: como se sente agora?".
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Escola do kemmandákiçoueu!
O pobre desinfeliz é convocado para esclarecer qualquer aspecto da notícia, ou mesmo para dizer de sua razão, e toma lá na mona que é pra da próxima vez saberes que "eu pergunto e tutázakimastás de boca fechada!".
Tem sido um estilo amplamente cultivado na TVI por Manela Boca Guedes....
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Escola da Cicciolina
Presente em qualquer telejornal de qualquer canal. Sem apelo nem agravo a pérola da música na informação, a prova provada de que estes miúdos e miúdas gostam tanto do que fazem que atingem o sétimo céu quando trabalham. Reparem só neste exemplo: a rapariga, com aquela coisa coisa à frente da boca (lá estão vocês de novo, aquela coisa é o mi-cro-fo-ne!) começa a relatar "Foi então que âhhhnnn, o presidente da junta âhhhnnn pediu ao âhhhnnn presidente da câmara que âhhhnnn lhe cedesse uns terrenos para âhhhnnn a contrução do gimnodesportivo". Um verdadeiro pitéu, o estilo cicciolina. Podiam era variar, de vez em quando uns ah!s e uns oh!s também não ficariam nada mal...
segunda-feira, 30 de agosto de 2004
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