domingo, 26 de setembro de 2004

Memória





sábado, 25 de setembro de 2004

Bom ouvido

Quando o cow-boy, no alto do cavalo, parou ao seu lado, o índio, com o ouvido esquerdo colado ao chão, exclamou:

- Três cavalos. Dois homens e uma mulher nova. O cavalo da mulher é preto e os dos homens são castanhos. Todos usam duas pistolas. Ela tem um cantil com água e um deles tem barba e bigode.

- E tu consegues saber tudo isso escutando aí no chão? - perguntou o cow-boy.

- Eu não estou escutando, sua besta!!! Fui atropelado por eles há dez minutos!

A TVI METE NOJO!

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O telejornal da TVI começou às 20.00H. Neste momento são 20.30H e a TVI continua com a notícia de abertura, em directo da Figueira, Portimão: o tio da Joana, a mãe da Joana, se a Joana está viva ou não, se a Joana já era alvo de agressões. A cambada está lá toda, à espera de dar umas palmadas num dos suspeitos, mas em directo, em frente às câmaras de televisão, porque de acordo com o que estou a ver, falam mas de costas e com a voz distorcida. E se o julgamento não fôr de porta fechada, toda a gente lá vai mas apenas para berrar à saída, e em frente às câmaras, porque isto de ser herói e dizer a verdade, só de costas e com a voz distorcida. Não fora a tristeza e o revoltante do caso, apeteceria dizer que "isto é da joana..."

À TVI não interessa se as joanas deste país são bem ou mal tratadas, se vão continuar a levar porrada ou se o padrasto lhes salta para cima, se foram violadas ao cinco anos de idade ou se morreram virgens. O que interessa à TVI, e à cambada, é o folhetim, é uma novela que não paga direitos de autor e onde os personagens apenas querem um pagamento: falar de costas para a câmara e com a voz distorcida.

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Realmente a TVI mete nojo.

Uma mão estendida, a outra na barriga

Há pouca poesia de que gosto. Alguma dessa está num sítio que há bem pouco tempo descobri, o Pedra a Pedra, e aonde se pode ir a partir das Sombra Frescas aqui ao lado. Não me perguntem por que gosto pouco de poesia. Sei lá. Talvez porque alguns se chamam poetas a si próprios apenas porque insistem em escrever só até meio da linha. No entanto, e sem me querer arvorar em poeta (mais a mais insisto em escrever até ao fim da linha) e porque é tão verdade como estar a escrevê-lo, relato-vos o que se passou comigo ontem, sexta-feira, pelas 4 e meia da tarde.
Já a tinha visto aí pela cidade, uma figura pequena e magra, lenço preto na cabeça, da cor do resto da roupa. Tudo o que não era negro não passava de cinzento escuro. Nunca tinha olhado para ela com olhos de a ver. Sei que já a tinha olhado, limitando-me a consumir a imagem que me era posta à frente. Ontem aconteceu olharmo-nos frente a frente, da mesma maneira que me barrou o caminho num passeio mais ou menos estreito. Parou a dois palmos de mim, a face à altura do meu peito e olhou-me bem nos olhos. O olhar sem brilho, cinzento claro, a única coisa clara naquele ser, estendeu-me a mão direita com a palma virada para cima. A esquerda pousou-lhe no estômago e iniciou um breve semi-círculo que logo parou. Compreendi perfeitamente e joguei a mão à carteira, envergonhado pela minha situação de ter mais do que ela. Rezava a todos os santos para ter uma moeda ali à mão. Por sorte para mim e para ela lá estava um euro. Uma simples moeda de um euro que me apressei a colocar-lhe na palma da mão, revoltado por dezenas de fantasmas que ali passavam, indiferentes à situação; fantasmas a quem apenas interessava ter 0,65 € por dia todos os dias da semana para comprar "A Bola" ou o "Record", ou uma revista que traga os 10 capítulos antecipados da novela, ou se o Zé Maria se suicidou ou está noivo. Apetecia-me escarrar na cara de alguns e algumas que sei vão todos os domingos papar uma missa, pôr uma moedita no prato da colecta e assim recebem duas doses de detergente para a alma, que fica rebrilhante; mas que ali me censuravam mudamente por ser "fraco". Apeteceu-me fugir dali para fora o mais depressa possível, pela vergonha de estar rodeado de coisas que de comum comigo pouco têm, a não ser andarem em duas patas... Apeteceu-me gritar bem alto que o rei se está nas tintas para quem pede. E que cada povo tem o rei que merece (ou quer).
Se for mais forte que a fome que lhe vi e continuo a adivinhar, se mais alguém tiver um pouco de vergonha, como eu tive, talvez tenha oportunidade de lhe dar mais umas moedas...

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Hoje estou noutra

Ná! sentei-me aqui pra escrever qualquer coisa mas hoje não estou com pachorra. Vou mas é dar uma espreitadela aí pelas lamechices...

domingo, 19 de setembro de 2004

Contributos para o Dicionário da Academia

A de alimária - aquele gajo que encontramos todos os sábados na meia-laranja e a quem falamos muito bem, mas que não torce pelo nosso clube e vota sempre nos outros.

B de Boleta - Uma coisa que a cambada de alimárias que por aí anda insiste em chamar bolota. Faz mal aos intestinos dos alfacinhas; mas quando raio é que eles descobrem que têm de ser ingeridas por via oral?

C de carraça - o espontâneo que, quando a gente tá a conseguir chegar a vias de facto com a tipa das trancas boas acabadinha de conhecer na discoteca, insiste que nos conhece e tal e blá blá blá e em contar que esteve com a gente na tropa e mais blá blá blá, e nunca mais desanda dali pra fora.

D de dispositivo intra-uterino - o chamado aparelho. Quando a filha da D. Agnela lhe disse que ía pôr e onde ía pôr o aparelho, a pobre mulher ía desmaiando: "Oh! Filha, mas tem de ser daqueles pequininos com óscultadoris como o que ó tê pai usa pra óvir a bola!".

E de erva - o que não falta por aí.

F de coiso - pois, coiso... aquela coisa que se faz pra fazer meninos.

G de gandálimária - o mesmo gajo da letra A, mas quando falamos dele a um amigo.

H de homem - é que andam por aí uns gajos que são homens com Ó grande.

I de Indubitavelmente - não sei por que razão ainda ninguém pegou nesta. Foi a época da conjuntura práqui, conjuntura práli, depois foram as sinergias práqui, as sinergias práli, mas ainda ninguém pegou no indubitavelmente. Indubitavelmente ele há coooisas...

J de javali - um bichinho simpático e saboroso que, ao que parece, já aqui no Alentejo é caçado de helicóptero e ... , bem, bem, cala-te boca.!

L de lâmpada - rima com tâmpada. Não sabem o que é? então experimentem lá: tâmpada panela!

M de meia-laranja - é ali em frente ó luis da rocha.

N de nas ditas cujas - A resposta que apetece dar a certas intervenções ministeriais. NN , eniene.

O de ó porra! - penso que não é preciso explicar quando se deve usar esta, eheh

P de preseff.. percef...... perze... prevenn... porra, pra que é que mudaram o nome às camisas de vénus?

Q de quêjo - se fizesse mesmo esquecer não havia problema, os ratos nunca sabiam ondé que tava.

R de reaccionário - pronto, tá prometido, não vou dizer mal do Polis (pelo menos até ao fim deste "post").

S de assombra - da azenhêra, pois então.

T de tou-me - tou-me borrifando pra dizer mal do Polis, já tô farto.

U de qualquer coisa começada por u.

V de pianço - pianço, bernhol, birinaite, começa tudo por V, é tudo vinho!

X de xiiiiii! que gaja tão boooaaaa!

Z - a letra por onde começa quase tudo no Alentejo: a zovelhas, a zosgas, o zabutres...

sábado, 18 de setembro de 2004

Conhecem a D. Miraldina?

Vocês não conhecem a D. Miraldina, pois não? É claro que não conhecem. E sendo assim nem sabem onde ela mora. Nem sabem que nunca casou e que isso não lhe traz qualquer infelicidade, todo o seu amor vai para o Búbú, um rolinho de pêlo branco com um pontinho preto num dos lados a fazer de focinho.

A D. Miraldina é uma mulher e pêras, que quer tudo nos trinques. E ai de quem esteja no outro lado da barricada quando se trata de pugnar pelos seus direitos. É uma lutadora solitária, ela bem tenta estar de bem com o mundo, mas o mundo, tooooodo o mundo, insiste em estar de mal com ela...
Pois a D. Miraldina passou toda a santa tarde dum sábado de sol a mandar vir com três catraios; é que os pirralhos insistiam que aqueles parcos metros quadrados de relva em frente à sua varanda de rés-do-chão metido quase a primeiro andar eram nada mais nada menos que um estádio de futebol. Prometeu que esfaqueava a bola se esta lhes caísse nas mãos, que chamaria a polícia se esta servisse pra mais alguma coisa que não apenas pra passar multas de mau estacionamento à D. Quicas, sua companheira do chá das cinco... Mas os putos, népia. Malcriados como o demo. Fizeram ali mesmo o seu Euro_Dois_Mil_e_Tal . Felizmente também tinham de jantar, os diabretes que nem isso mereciam, pois sabe-se perfeitamente que canalha de palmo e meio só dá é fezes; e lá abalaram.
Coitada da D. Miraldina. Passa a sua santa vida em casa rezando para que o mundo se dê bem consigo, que ela tenta estar de bem com ele. Só sai de casa para levar o Búbú a fazer cócó. E mesmo para isso, nem vai pra muito longe, é mesmo ali na relva ao pé de casa...
Têm mesmo a certeza que não conhecem a D. Miraldina?