quarta-feira, 29 de setembro de 2004

O rei pode não ir nú, mas lá que vai em cuecas...

Como já escrevi aqui, considero que a TVI faz um tipo de televisão nojento, nada dignificante do jornalismo, e dum nacional "puxa-lagrimismo" atroz. Mas ontem, tenho de dar a mão à palmatória, gostei do que vi. Estava eu postado em meu descanso, roncando de preguiça no sofá, com o telecomando na mão "zappingando" à procura de algo interessante, quando dou com a notícia de ouro! O furo do ano! O rei Alberto João foi contestado na sua ilha. Lá tive de gramar a Boca Guedes um pedaço de tempo mas valeu a pena: não perdi pitada. E escaqueirei-me a rir por ver que um casal de irmãos (um e uma, pois então, que isso de casais de dois ou de duas é javardice)foi prá inauguração do jardim real com umas faixas pintadas a mandar vir com El-Rei D. Alberto João.

Não me venham dizer que o governo regional pagou 10 ou 12 milhões de euros (meus incluídos) pelo terreno que estava degradado, não me venham com a balela de que o local era acoito de drogados, nem me lixem com o estafado argumento tão usado em ocasiões semelhantes de que se valorizou o terreno e pim pam pum! Se, desta vez, El-Rei tem razão ou não estou-me borrifando. O que me interessa é que alguém perdeu o medo e começou a bater-lhe o pé. Estribado na cobardia de quase toda uma classe política que fica acocorada perante ofensas à República Portuguesa, perante uma indiferença cúmplice do governo (seja laranja, rosa ou morango, talvez banana, todos se calam quanto aos desmandos de El-Rei), perante uma Assembleia da República que nada mais faz que "rosnar baixinho" a um trauliteiro, este mesmo ofende toda uma nação destilando em cada intervenção pública o seu ódio "ó contnent"!

Por tudo isso regozijei! A polícia lá estava a mando do caceteiro, impedindo aquela avassaladora multidão de dois (DOIS!) indivíduos de provocar desacatos. Tornou-se óbvio que o esplendor de Sua Majestade mandou uns salpicos de lama para cima dos agentes, que impediram aqueles dois energúmenos de se manifestarem pacificamente, que isso de direitos consagrados na Constituição é com os "gajos do contnent!". Visivelmente incomodados pela presença de máquinas de filmar lá se portaram cordialmente para com os detractores de El-Rei; resta saber serão assim todos os dias...

domingo, 26 de setembro de 2004

"O Alentejo é feio"

Obtive esta fotografia em 1996, perto de Beja, junto à Quinta da Saúde. A mancha vermelha é "apenas" um manto de papoilas. Venham de lá os bimbos dizer que o Alentejo é feio.

Fonte Mouro

Li há uns tempos e já nem sei onde que Beja, ao contrário de outras terras do sul, não tem a sua história de mouras encantadas. Pois tem-na, e bem bonita

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Ao contrário do que aconteceria uns séculos mais tarde, aquando da abjecta história da Inquisição, depois da conquista de Beja ainda por cá ficaram bastantes sarracenos que, continuando com as suas crenças religiosas, viviam em paz com os novos senhores da região.

Ora a menos de uma légua para norte da cidade, no local onde é agora Fonte Mouro, habitava um mouro bastante rico, pai de uma belíssima moça por quem um jovem cavaleiro cristão se tomou de amores. Também ela não ficou indiferente à figura do jovem; e começaram a encontrar-se pela calada da noite nos jardins do palacete árabe, por entre palmeiras e serenos lagos.

Mas o astuto árabe, desconfiado da súbita felicidade da filha, pôs-se a espiá-la e descobriu dos seus amores. Não querendo que uma devota de Alá se unisse a um cristão proibiu-a de se encontrar com o namorado. Valeu aos amantes uma velha ama que criara a moça e que conseguiu combinar a fuga. Numa noite de lua cheia, o cavaleiro arrumou a sua montada ao muro do palacete e assobiou o sinal combinando, pouco tardando para que a jovem pulasse para o lado de fora.

Já ambos no cavalo se preparavam para partir quando do escuro surge o vulto do árabe que, erguendo os braços ao céu, invocou o nome de Alá e rezou o velho encantamento de muito poucos conhecido.

Conta-se que do céu desceu um raio que transformou o jovem ousado em fonte, enquanto a bela árabe se transformava em cobra.

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Passaram nove séculos. Ninguém mais soube do velho árabe e o palacete desfez-se, comido pelo pó dos tempos. Mas ainda hoje se pode ver, nas cálidas noites de lua cheia, uma enorme cobra com um belíssimo rosto de mulher ir beijar a água da fonte ...

Memória





sábado, 25 de setembro de 2004

Bom ouvido

Quando o cow-boy, no alto do cavalo, parou ao seu lado, o índio, com o ouvido esquerdo colado ao chão, exclamou:

- Três cavalos. Dois homens e uma mulher nova. O cavalo da mulher é preto e os dos homens são castanhos. Todos usam duas pistolas. Ela tem um cantil com água e um deles tem barba e bigode.

- E tu consegues saber tudo isso escutando aí no chão? - perguntou o cow-boy.

- Eu não estou escutando, sua besta!!! Fui atropelado por eles há dez minutos!

A TVI METE NOJO!

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O telejornal da TVI começou às 20.00H. Neste momento são 20.30H e a TVI continua com a notícia de abertura, em directo da Figueira, Portimão: o tio da Joana, a mãe da Joana, se a Joana está viva ou não, se a Joana já era alvo de agressões. A cambada está lá toda, à espera de dar umas palmadas num dos suspeitos, mas em directo, em frente às câmaras de televisão, porque de acordo com o que estou a ver, falam mas de costas e com a voz distorcida. E se o julgamento não fôr de porta fechada, toda a gente lá vai mas apenas para berrar à saída, e em frente às câmaras, porque isto de ser herói e dizer a verdade, só de costas e com a voz distorcida. Não fora a tristeza e o revoltante do caso, apeteceria dizer que "isto é da joana..."

À TVI não interessa se as joanas deste país são bem ou mal tratadas, se vão continuar a levar porrada ou se o padrasto lhes salta para cima, se foram violadas ao cinco anos de idade ou se morreram virgens. O que interessa à TVI, e à cambada, é o folhetim, é uma novela que não paga direitos de autor e onde os personagens apenas querem um pagamento: falar de costas para a câmara e com a voz distorcida.

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Realmente a TVI mete nojo.

Uma mão estendida, a outra na barriga

Há pouca poesia de que gosto. Alguma dessa está num sítio que há bem pouco tempo descobri, o Pedra a Pedra, e aonde se pode ir a partir das Sombra Frescas aqui ao lado. Não me perguntem por que gosto pouco de poesia. Sei lá. Talvez porque alguns se chamam poetas a si próprios apenas porque insistem em escrever só até meio da linha. No entanto, e sem me querer arvorar em poeta (mais a mais insisto em escrever até ao fim da linha) e porque é tão verdade como estar a escrevê-lo, relato-vos o que se passou comigo ontem, sexta-feira, pelas 4 e meia da tarde.
Já a tinha visto aí pela cidade, uma figura pequena e magra, lenço preto na cabeça, da cor do resto da roupa. Tudo o que não era negro não passava de cinzento escuro. Nunca tinha olhado para ela com olhos de a ver. Sei que já a tinha olhado, limitando-me a consumir a imagem que me era posta à frente. Ontem aconteceu olharmo-nos frente a frente, da mesma maneira que me barrou o caminho num passeio mais ou menos estreito. Parou a dois palmos de mim, a face à altura do meu peito e olhou-me bem nos olhos. O olhar sem brilho, cinzento claro, a única coisa clara naquele ser, estendeu-me a mão direita com a palma virada para cima. A esquerda pousou-lhe no estômago e iniciou um breve semi-círculo que logo parou. Compreendi perfeitamente e joguei a mão à carteira, envergonhado pela minha situação de ter mais do que ela. Rezava a todos os santos para ter uma moeda ali à mão. Por sorte para mim e para ela lá estava um euro. Uma simples moeda de um euro que me apressei a colocar-lhe na palma da mão, revoltado por dezenas de fantasmas que ali passavam, indiferentes à situação; fantasmas a quem apenas interessava ter 0,65 € por dia todos os dias da semana para comprar "A Bola" ou o "Record", ou uma revista que traga os 10 capítulos antecipados da novela, ou se o Zé Maria se suicidou ou está noivo. Apetecia-me escarrar na cara de alguns e algumas que sei vão todos os domingos papar uma missa, pôr uma moedita no prato da colecta e assim recebem duas doses de detergente para a alma, que fica rebrilhante; mas que ali me censuravam mudamente por ser "fraco". Apeteceu-me fugir dali para fora o mais depressa possível, pela vergonha de estar rodeado de coisas que de comum comigo pouco têm, a não ser andarem em duas patas... Apeteceu-me gritar bem alto que o rei se está nas tintas para quem pede. E que cada povo tem o rei que merece (ou quer).
Se for mais forte que a fome que lhe vi e continuo a adivinhar, se mais alguém tiver um pouco de vergonha, como eu tive, talvez tenha oportunidade de lhe dar mais umas moedas...