sábado, 23 de outubro de 2004

Poeira para os olhos

A hipocrisia continua a campear. O comissário europeu para a saúde, o sr. David Byrne, quer fazer o pessoal acreditar que está realmente interessado em combater o tabagismo. Depois das mensagens nos maços de tabaco, agora é a vez de puxar da máquina fotográfica e toca de prantar por ali umas fotografias de cancros, abortos espontâneos e mais umas imagens da galeria dos horrores. Claro que os desgovernos que temos tido (e continuaremos a ter, sejam eles rosa, laranja, vermelho, amarelo ou mesmo roxo-camarão-das-berlengas) vão beber de um só trago a ideia, ou não estivêssemos num país em que "o que vem de lá de fora é que é bom".
Eu já não fumo, abandonei o vício há mais de cinco anos, mas não seria (tal como não foi) este tipo de medidas que me levaria a abandonar o cigarro. Só o mais ingénuo sacristão poderá crer que as mensagens impressas nos maços podem levar ao não-consumo. Todos sabemos que as mensagens do género "fumar mata", "os fumadores morrem precocemente" e quejandas, mal passaram a ser obrigatórias despoletaram um comércio mais que legítimo de caixas porta-maços de tabaco com imagens divertidas e belas. Além de que a simples presença daqueles avisos mais não faz que estimular o desejo de desafio inerente a qualquer adolescente minimamente digno desse nome. Mais: se eu ainda fosse fumador e me caísse nas mãos um maço de tabaco com a frase "Fumar pode provocar diminuição do desejo sexual", toca de fumar dois e três logo de seguida, que isto de ser português de gema é obra!
Tal como abri este "post", continuo a dizer que a hipocrisia campeia por estas bandas. Só mesmo um tosco é que não vê que nenhum, mas absolutamente nenhum governo está interessado em diminuir o consumo de tabaco que tantos lucros lhe dá. O que interessa aos governos europeus (entre os quais o nosso) é pura e simplesmente não cair na desgraça em que já caiu uma série de tabaqueiras norte-americanas, que é um canceroso ou uma tuberculosa conseguir extorquir-lhes uma indemnização do caneco, porque alegadamente ninguém os avisou que fumar provoca isto ou aquilo!
Da mesma maneira que a distribuição de seringas e colagem desgarrada de cartazes com avisos contra a sida não têm evitado o aumento do número de contágios, o que só seria possível se alguém que ainda mexe muitos cordelinhos permitisse que um governo dito laico implementasse uma verdadeira política de educação sexual nas escolas, também o tabagismo só diminuirá quando a luta contra ele partir duma política de saúde implementada nos bancos da escola e não pelo recurso ao medo.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Ser alentejano é um estado de alma

Não sei porquê, mal acordei hoje veio-me à memória um daqueles episódios simples, mas que nos ficam gravados para sempre; e que nos fazem admirar a maneira como certos amigos nossos estão no mundo. Passou-se no restaurante "O Portão", em 1990, ainda o saudoso Patrício estava entre nós. Tinha eu lá ido com um amigo, membro do meu grupo de música e copofonia. Embora a pandilha costumasse ser um pouco maior, nessa noite mais ninguém quis ir aos bitoques d' "O Portão".

As conversas vinham agarradas umas às outras como as cerejas. Saltava-se desta música que "fica melhor sem aquela entrada da bateria" para "os gajos da semana passada já telefonaram a confirmar o espectáculo?", passando de raspão por "o amplificador tá a pifar"... Até que a conversa acabou por cair na "alentejanidade". Foi quando o nosso vocalista se virou para mim e me deixou siderado:

- Sabes, pá, é que tenho de te confessar : eu não sou alentejano.

- Nááá, tás a gozar!

- A sério! Nasci em Lisboa, só que me trouxeram pra Beja com três ou quatro dias.

A surpresa tansformava-se em descrença e vice-versa. Então conheço este tipo vai pra uns quinze anos, companheiros de música há uns cinco, um circulo enorme de amigos comuns, e agora vem-me meter os dedos nos olhos?

E mais: como é que este gajo gosta tanto disto e não é daqui? Defende isto com unhas e dentes!.... e afinal....

- Mostra lá o B.I., deixa.te de fitas.

E era verdade, lá estava, o meu amigo era ( e é, e espero que continue a ser durante muitos anos)... alfacinha!

Mas só no B.I.

Fez.-me um pedido que até hoje respeitei : "Mas, por favor, não digas a ninguém.".

E não disse! E nem vou dizer. A não ser que ele próprio me consiga provar que não é Alentejano.



domingo, 17 de outubro de 2004

Defender a tradição implica defender a estupidez?

Uma das frases por que me defino a mim próprio é "detesto talibans e racistas, nazis e praxistas". Assim mesmo, curto e grosso. No entanto, quase que diariamente nesta época do ano, sou confrontado com a visão da última daquelas quatro odiendas classes de gente que, se bem encarada no fundo dos olhos e indagada apenas "Porquê?" limita-se a responder duma forma vazia, tão vazia de argumentação como vazia de imaginação é a sua forma de actuar nas primeiras semanas de aulas do ensino superior.

A coberto da defesa da tradição, o praxista permite-se atacar moralmente o caloiro (na pessoa deste e dos seus familiares) que, por não passar de um "bicho" (nas palavras do "doutor") foi levado pela estupidez a escolher aquela escola. Por sinal a mesma escola que o energúmeno escolheu; pura coincidência, pois claro...

Defendendo-se com a "integração" do caloiro, permite-se o "lente" armar-se em sargento de infantaria. Exemplo: "Mas estão gozando comingo?! Vá lá!! Quero ouvir isso bem alto!!". Ou seja, uma reles imitação de um sargento de infantaria; por motivos óbvios sabe-se que o "escolante em vias de doutoramento" nunca viu nem verá um quartel...



Quanto ao iniciante, vindo de lá de trás do cu de judas, não conhecendo ninguém, anseia por afiliação, quer ver-se integrado em algo o mais rapidamente possível e sujeita-se a tudo e mais alguma coisa. Permite tudo, reconhece suma autoridade a um semelhante, apenas pelo facto de este ter chegado dois ou três anos antes. Apenas não permite que o pai, lá na terra, lhe diga pacientemente para não bater com a porta quando chegar da farra às quatro da manhã, porque aí o caloiro não vai tolerar o "abuso de autoridade".

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Frequentei, e espero voltar a frequentar, o ensino superior. Nada tenho contra a capa e a batina, deveriam ser preservadas a todo o custo, tal como a tradição, mas aceito que me digam que aqui é que me engano redondamente: para indivíduos que quase só vestem a farda de estudante para humilhar um colega recém-chegado, se se acabar com a praxe a tradição fica reduzida a vesti-la só em dias de bebedeira.

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Apenas mais uma bolota (e alguém me corrija se estou errado): nos bons pares de anos que tem o ensino superior em Beja e que tem havido o degradante espectáculo das praxes, não me parece que Câmara/Governo Civil/Polícia (porque não?)/Conselhos Directivos das escolas alguma vez se tenham juntado à volta duma mesa para debater o assunto. Será coisa de menos-valia ou alguém anda mesmo assobiando pró ar?



sábado, 16 de outubro de 2004

A nossa amiga vai-se esconder...



De certeza que não erro se afirmar que anda por aqui muita boa gente que nunca botou o olhinho num eclipse de lua. Não tem problema: na noite de 26 para 27 deste mês (Outubro) podem maravilhar-se, vai haver eclipse total.
A imagem acima foi obtida pelo astrofotógrafo Bengt Ask durante o eclipse total de 9 de Janeiro de 2001. Se tiverem um par de binóculos, mesmo fraquitos, e um pouchinho de coragem para não se meterem logo em vale de lençois, podem ter a certeza que vai ser ainda mais maravilhoso do que a foto acima, vai uma apostinha?


sexta-feira, 15 de outubro de 2004

A sombra da azinheira

A sombra da azinheira

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

E vá de porrada no trapo!

Isto de ser um trapo , ainda por cima um trapo com certas características, tem muito que se lhe diga.

Vem isto a propósito das bandeiras hasteadas em Beja. Já todos estarão de acordo que pelo menos 90% dos trapinhos que o sr. Scolari conseguiu que a malta pusesse por aí não eram genuínos, mas pura imitação daquilo que deveria ser a bandeira nacional. Peões de xadrez ou pimenteiros mal desenhados a servir de castelos; o verde em igual porção que o vermelho, cruzes brancas a servir de besantes, a cercadura branca do escudo em amarelo, tal como os besantes... e mais, e mais, e mais haveria a dizer. Muito mais. Só que o que há a dizer não é só o desenho. Lembrem-se que a Sic cobriu (ai cobriu sim senhor) o Sr. Durão Barroso numa intervenção na Turquia, tendo nas costas uma bandeira nacional com os castelitos cor de rosa, mas ninguém da Sic reparou que o vermelho e o verde estavam trocados dentro da esfera armilar, eh eh!, ceguetas!!! E o desplante dum chefe de governo (pronto, já pôs lá o afilhado mas é o mesmo) que se permite enquanto figura pública intervir frente a uma caricatura da sua (nossa) bandeira!

Também haveria que dizer algo aos senhores dos têxteis que se abespinharam porque os chinocas venderam bandeiras ao desbarato que ainda por cima eram erróneas, que eram gato por lebre.... olha a palhaçada.... Comprei em 2002, muito antes do Euro, uma bandeira nacional EM CONDIÇÕES ( e sei o que digo) de 90x60 cm e paguei quase 20 marmecos, quase quatro contitos. E nessa altura já havia chinesices e quejandas.... e os senhores dos têxteis de bico calado. Patriooootas!

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Gaita!, comecei na má lingua e quase me esquecia do que interessa.

Falemos das bandeiras de Beja. Essas de bom tecido, desenho irrepreensível, e hasteadas de..... cabeça pra baixo. Este fim de semana (9 e 10 de Outubro) lá estava a já costumeira amiga pendurada pelos pés.

Por acaso não reparei em mais. Mas só porque não passei nos locais do costume.

Mas acham isto inusual, é? Pois então tomem lá esta: já vi no mesmo dia, e em 3-locais diferentes-3 a mesma aberração.

E se eu vos disser que já vi em simultâneo, lado a lado, a Nacional e a Municipal? Mãe e filha!

Talvez me passe dos carretos um fim-de-semana destes e vá tirar umas fotos, que é que acham?

Ah!, já quase me esquecia: dependendo do número de comentários, talvez me decida a publicar aqui os locais onde tão maltratam a coitada (bolas, tenho de fazer pelos meus indicadores, né?)





domingo, 3 de outubro de 2004

A quinta dos abortos

Náááá....! se pensam que venho para aqui defender o aborto ou mandar vir com o Paulinho dos Marinheiros, desenganem-se que hoje não estou para aí virado.

Hoje venho falar mal de meia duzia de abortos que aceitaram ser metidos numa quinta com a casa de banho lá ao fuuuundo, sem electricidade e sem TE-LE-MÓ-VEL!!! Diabo dos diabos: sem telemóvel! Já viram que alimárias????

Ora bolas, que haja famílias portuguesas sem electricidade, a quem importa isso?

E se essas famílias não tiverem electricidade nem água, que se lixem que o problema é delas, pois então.

E se não tiverem electricidade, nem água, nem pão, que se desenrasquem.

E se não tiverem electricidade, nem água, nem pão, e nem tampouco casa de banho, que se desenrasquem e que façam o serviço de cu ao léu, que é saudável.

E se ainda por cima tiverem cinco ou seis filhos, que arranjem uma televisão, mas que antes arranjem a electricidade, mas que arranjem também a água, e que não façam mais moços que é pra precisarem de pouco pão, e que comprem um telemóvel.

Ora gaita, então meia dúzia de abortos que aceitam ser metidos numa quinta com a casa de banho lá ao fuuuundo, sem electricidade e sem telemóvel (diabo dos diabos: sem telemóvel) são programa de televisão, não têm telemóvel e isso é notícia.

Mas as famílias que não têm água, pão, electricidade, casa, essas quando é que começam a ser notícia?