segunda-feira, 15 de novembro de 2004

O "sô tôr" é que precisa de esterco nas trombas...





Há uns dias fiquei admirado ao ouvir os telejornais; e só não "postei" aqui sobre o assunto porque não tenho tido tempo. O caso da caloira da Escola Agrária de Santarém vai para a barra dos tribunais, e digam-me lá se é ou não é caso para admiração. É a história de mais uma caloira do ensino superior vexada, humilhada e ofendida na sua pessoa e na dos seus familiares, há um ano atrás. Coberta com esterco de porco na cara, peito, costas, cabelo.

São sete os "bácoros" indiciados nos autos (desculpem-me os verdadeiros bácoros) que agora estão obrigados a apresentar-se diariamente na esquadra lá do sítio, mas o que é verdade é que, tenho a absoluta certeza, a própria direcção da escola vai tentar minimizar o assunto; pelo menos a crer por um membro dessa mesma direcção que, fazendo com dois dedos o gesto ilustrativo da acção, afirmava na terça-feira da semana passada, dia oito, que "...esterco na cara é normal." O que o sr. dr. não quer saber, ou sabe muito bem e tenta pôr esterco nos olhos dos outros, é que da simples brincadeira entre colegas que, em determinada situação, tenham esse comportamento apenas por paródia logo vingada na primeira oportunidade e pelo mesmo método, e aquilo que se passou na sua escola é de uma diferença abissal, que só não vê quem tiver a cabeça cheia de esterco (não disse "coberta", disse "cheia" porque é POR DENTRO). E o "sô tôr" parece que nisso não falha mesmo nada...

Também não duvido absolutamente nada do desfecho: não vai haver provas, a ex-caloira vexada é que vai ficar mal no filme, porque a cobardia dos praxados, humilhados, ofendidos, é que vai falar quando forem chamados a testemunhar. Vamos asssim ficar a saber, finalmente!, que essa coisa das praxes violentas e vexantes é invenção de meia-dúzia de "caretas" que não têm classe para envergar a farda duma escola, e que nas recepcções ao irmão caloiro bebe-se chá de hortelã com bolinhos da amassadura.

sábado, 30 de outubro de 2004

A monarquia incógnita

Se tivesse jeito para a escrita, escrevia um romance. Nada de paixões assolapadas e impossíveis, que isso era a especialidade do Camilo Castelo Branco. E muito menos de mano e mana a dormir na mesma cama, ou o filho resolvendo finalmente o complexo de Édipo (desculpem lá o Freud) com a mãe na Rua das Flores; o Eça foi magistral nisso. Até matou a tal rapariguita por ter ido para a cama com o primo Basílio.
Ná! O que não falta na literatura portuguesa são mães arrependidas a atirar-se da janela abaixo, e fulanas a morrer de febres cerebrais (ainda estou pra saber o que são as febres cerebrais, mas enfim.)

O meu romance iria ser sobre a monarquia. Também não a monarquia tipo Espanhola, das Hollas (escreve-se com um ou com dois "éles"?) ; nem sobre a portuguesa, que meia dúzia de "mabecos" da imprensa dita cor-de-rosa insistem em pôr nas mãos dum tipo de bigodes que fala com a boca cheia de favas.

A monarquia do meu romance teria vários reis e vários príncipes, mas todos eles não visíveis. Os duques, marqueses, barões, condes e viscondes não apareceriam em nenhuma revista cor-de-rosa, azul ou amarela, simplesmente porque este tipo de revistas, ou SIC, TVI, ou Canal Vivir/Viver, nem sonharia que eles existiam. Tampouco as cinhas, as lilis,os castéis brancos ou tintos escusavam de esmolar fotografias em festas de alta burguesia falida, porque a burguesia (alta e falida ou não) era tida por todos como não existindo.

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E agora o enredo, coisa complicada mas nada impossível de se escrever.

Imaginem que os meus nobres e burgueses detinham o poder sem que alguém disso suspeitasse. Recebiam e geriam incalculáveis fortunas de milhões e milhões, mudando esta lei aqui, conseguindo aquela obra ali. Os seus nomes não teriam de levar um "de...e", tipo "de Pinto e Almeida", nem de ser amestiçados, do género " Antunes von Wilmmer". Poderiam ser até do género Manel dos Anzóis porque ninguém os saberia, jamais!

E ao contrário da máfia, que tenta obter o que quer à custa dum tiro neste ou dois naquele, os meus nobres seriam uns verdadeiros diplomatas, avessos a qualquer tipo de publicidade ou espavento. Mexendo-se na sombra, obteriam muito, mas muito mais com menos, mas muito menos custo: seriam uns verdadeiros mestres do xadrez colocando neste lugar o indivíduo que tentaria mudar as leis a seu contento, pagando-lhe rios e rios de dinheiro para ser a peça a abater pelos seus adversários sem sequer dar a entender que havia uma "monarquia" sombra do governo eleito. Nomeando através doutra peça do seu tabuleiro um peão ignorante da acção de bastidores que se dispusesse a mandar determinado adversário mais incómodo para a rua.
No meu romance apareceriam sociedades secretas ou semi-secretas, tipo maçonaria(s) e opus dei(s), mas mesmo essas julgariam (apenas julgariam) mexer os cordelinhos das marionetas. O que é importante é que ninguém, mas absolutamente ninguém do país do meu romance teria consciência de que existia uma monarquia escondida, tão escondida quão poderosa, manipuladora e sempre, sempre, mas sempre conseguindo atingir os seus propósitos.

Interrogo-me se seria legítimo escrever no prefácio que "qualquer semelhança entre passagens desta obra e cenas da vida quotidiana é pura coincidência"...

domingo, 24 de outubro de 2004

Não é por nada de especial

É só porque me deu na cabeça.







sábado, 23 de outubro de 2004

Poeira para os olhos

A hipocrisia continua a campear. O comissário europeu para a saúde, o sr. David Byrne, quer fazer o pessoal acreditar que está realmente interessado em combater o tabagismo. Depois das mensagens nos maços de tabaco, agora é a vez de puxar da máquina fotográfica e toca de prantar por ali umas fotografias de cancros, abortos espontâneos e mais umas imagens da galeria dos horrores. Claro que os desgovernos que temos tido (e continuaremos a ter, sejam eles rosa, laranja, vermelho, amarelo ou mesmo roxo-camarão-das-berlengas) vão beber de um só trago a ideia, ou não estivêssemos num país em que "o que vem de lá de fora é que é bom".
Eu já não fumo, abandonei o vício há mais de cinco anos, mas não seria (tal como não foi) este tipo de medidas que me levaria a abandonar o cigarro. Só o mais ingénuo sacristão poderá crer que as mensagens impressas nos maços podem levar ao não-consumo. Todos sabemos que as mensagens do género "fumar mata", "os fumadores morrem precocemente" e quejandas, mal passaram a ser obrigatórias despoletaram um comércio mais que legítimo de caixas porta-maços de tabaco com imagens divertidas e belas. Além de que a simples presença daqueles avisos mais não faz que estimular o desejo de desafio inerente a qualquer adolescente minimamente digno desse nome. Mais: se eu ainda fosse fumador e me caísse nas mãos um maço de tabaco com a frase "Fumar pode provocar diminuição do desejo sexual", toca de fumar dois e três logo de seguida, que isto de ser português de gema é obra!
Tal como abri este "post", continuo a dizer que a hipocrisia campeia por estas bandas. Só mesmo um tosco é que não vê que nenhum, mas absolutamente nenhum governo está interessado em diminuir o consumo de tabaco que tantos lucros lhe dá. O que interessa aos governos europeus (entre os quais o nosso) é pura e simplesmente não cair na desgraça em que já caiu uma série de tabaqueiras norte-americanas, que é um canceroso ou uma tuberculosa conseguir extorquir-lhes uma indemnização do caneco, porque alegadamente ninguém os avisou que fumar provoca isto ou aquilo!
Da mesma maneira que a distribuição de seringas e colagem desgarrada de cartazes com avisos contra a sida não têm evitado o aumento do número de contágios, o que só seria possível se alguém que ainda mexe muitos cordelinhos permitisse que um governo dito laico implementasse uma verdadeira política de educação sexual nas escolas, também o tabagismo só diminuirá quando a luta contra ele partir duma política de saúde implementada nos bancos da escola e não pelo recurso ao medo.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Ser alentejano é um estado de alma

Não sei porquê, mal acordei hoje veio-me à memória um daqueles episódios simples, mas que nos ficam gravados para sempre; e que nos fazem admirar a maneira como certos amigos nossos estão no mundo. Passou-se no restaurante "O Portão", em 1990, ainda o saudoso Patrício estava entre nós. Tinha eu lá ido com um amigo, membro do meu grupo de música e copofonia. Embora a pandilha costumasse ser um pouco maior, nessa noite mais ninguém quis ir aos bitoques d' "O Portão".

As conversas vinham agarradas umas às outras como as cerejas. Saltava-se desta música que "fica melhor sem aquela entrada da bateria" para "os gajos da semana passada já telefonaram a confirmar o espectáculo?", passando de raspão por "o amplificador tá a pifar"... Até que a conversa acabou por cair na "alentejanidade". Foi quando o nosso vocalista se virou para mim e me deixou siderado:

- Sabes, pá, é que tenho de te confessar : eu não sou alentejano.

- Nááá, tás a gozar!

- A sério! Nasci em Lisboa, só que me trouxeram pra Beja com três ou quatro dias.

A surpresa tansformava-se em descrença e vice-versa. Então conheço este tipo vai pra uns quinze anos, companheiros de música há uns cinco, um circulo enorme de amigos comuns, e agora vem-me meter os dedos nos olhos?

E mais: como é que este gajo gosta tanto disto e não é daqui? Defende isto com unhas e dentes!.... e afinal....

- Mostra lá o B.I., deixa.te de fitas.

E era verdade, lá estava, o meu amigo era ( e é, e espero que continue a ser durante muitos anos)... alfacinha!

Mas só no B.I.

Fez.-me um pedido que até hoje respeitei : "Mas, por favor, não digas a ninguém.".

E não disse! E nem vou dizer. A não ser que ele próprio me consiga provar que não é Alentejano.



domingo, 17 de outubro de 2004

Defender a tradição implica defender a estupidez?

Uma das frases por que me defino a mim próprio é "detesto talibans e racistas, nazis e praxistas". Assim mesmo, curto e grosso. No entanto, quase que diariamente nesta época do ano, sou confrontado com a visão da última daquelas quatro odiendas classes de gente que, se bem encarada no fundo dos olhos e indagada apenas "Porquê?" limita-se a responder duma forma vazia, tão vazia de argumentação como vazia de imaginação é a sua forma de actuar nas primeiras semanas de aulas do ensino superior.

A coberto da defesa da tradição, o praxista permite-se atacar moralmente o caloiro (na pessoa deste e dos seus familiares) que, por não passar de um "bicho" (nas palavras do "doutor") foi levado pela estupidez a escolher aquela escola. Por sinal a mesma escola que o energúmeno escolheu; pura coincidência, pois claro...

Defendendo-se com a "integração" do caloiro, permite-se o "lente" armar-se em sargento de infantaria. Exemplo: "Mas estão gozando comingo?! Vá lá!! Quero ouvir isso bem alto!!". Ou seja, uma reles imitação de um sargento de infantaria; por motivos óbvios sabe-se que o "escolante em vias de doutoramento" nunca viu nem verá um quartel...



Quanto ao iniciante, vindo de lá de trás do cu de judas, não conhecendo ninguém, anseia por afiliação, quer ver-se integrado em algo o mais rapidamente possível e sujeita-se a tudo e mais alguma coisa. Permite tudo, reconhece suma autoridade a um semelhante, apenas pelo facto de este ter chegado dois ou três anos antes. Apenas não permite que o pai, lá na terra, lhe diga pacientemente para não bater com a porta quando chegar da farra às quatro da manhã, porque aí o caloiro não vai tolerar o "abuso de autoridade".

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Frequentei, e espero voltar a frequentar, o ensino superior. Nada tenho contra a capa e a batina, deveriam ser preservadas a todo o custo, tal como a tradição, mas aceito que me digam que aqui é que me engano redondamente: para indivíduos que quase só vestem a farda de estudante para humilhar um colega recém-chegado, se se acabar com a praxe a tradição fica reduzida a vesti-la só em dias de bebedeira.

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Apenas mais uma bolota (e alguém me corrija se estou errado): nos bons pares de anos que tem o ensino superior em Beja e que tem havido o degradante espectáculo das praxes, não me parece que Câmara/Governo Civil/Polícia (porque não?)/Conselhos Directivos das escolas alguma vez se tenham juntado à volta duma mesa para debater o assunto. Será coisa de menos-valia ou alguém anda mesmo assobiando pró ar?



sábado, 16 de outubro de 2004

A nossa amiga vai-se esconder...



De certeza que não erro se afirmar que anda por aqui muita boa gente que nunca botou o olhinho num eclipse de lua. Não tem problema: na noite de 26 para 27 deste mês (Outubro) podem maravilhar-se, vai haver eclipse total.
A imagem acima foi obtida pelo astrofotógrafo Bengt Ask durante o eclipse total de 9 de Janeiro de 2001. Se tiverem um par de binóculos, mesmo fraquitos, e um pouchinho de coragem para não se meterem logo em vale de lençois, podem ter a certeza que vai ser ainda mais maravilhoso do que a foto acima, vai uma apostinha?