sexta-feira, 21 de julho de 2006

Subsídios para a história do surrealismo em Portugal

Domingo, 9 de Julho de 2006.
- Cabovisão, boa tarde, está a falar com Abel Abelardo (nome fictício) em que posso ser útil?
- Boa tarde. Sou vosso cliente e pode mesmo ser útil. Primeiro pode transmitir um recado a alguém seu superior com responsabilidades na empresa?
- Sim, pois claro. Queira fazer o favor de dizer.
- Diga a alguém seu superior com responsabilidades na empresa que o serviço que estão a prestar é uma porra. Pode dizer porra porque sou mesmo alentejano. O vosso serviço está uma poooorra.
- O senhor tem algum problema que possamos resolver? (bem treinado... voz monocórdica, não demonstrando a mínima emoção, fingindo não saber o significado de poooorra, não há dúvida que se estão a esmerar).
- Antes que me pergunte, o meu número de cliente é 123456789 (fictício também, pois claro, pensavam que eu ía dar aos amigos leitores o meu verdadeiro número?).
- E em que posso ser útil? (porra, já se esqueceu da primeira coisa em que poderia ser útil).
- Quero reportar que desde ontem à tarde não tenho qualquer ligação à net.
- Pois sim, sr. Fulano de Tal. Já experimentou afastar o modem do monitor e blá blá blá tudo aquilo que a gente sabe?
- Já fiz reset ao modem, já afastei o modem do monitor e blá blá blá tudo aquilo que a gente sabe.
- Pois estou aqui a ver que o senhor está sem ligação à net (PORRA! Então mas o que é que tenho estado a dizer a este treinadíssimo monocórdico?!?).
- Siiiimmmm...
- A que horas está disponível para uma visita do técnico?
- Só depois das dezassete e trinta.
- Só depois da dezassete e trinta (olha! aqui há eco!!!). Então o nosso técnico visitá-lo-á na quarta-feira a partir das dezassete e trinta. Informo o sr. Fulano de Tal que se a responsabilidade da interrupção de ligação à net não fôr nossa terá de pagar vinte e cinco euros da deslocação do técnico.
- Tudo bem. Eu contratei um serviço convosco que está subvertido unilateralmente: canais codificados que não o eram aquando da subscrição dos vossos serviços, pago uma ligação à net que não vou ter durante mais três dias, e vocês querem que eu pague 25€ pela deslocação do técnico. Eu pago com todo o gosto mas com o devido conhecimento ao Instituto de Defesa do Consumidor!
Silêncio de sete ou oito segundos do outro lado, porra que esta fez mossa.
- Canais codificados? Que canais? (ai agora sou eu que devo responder?)
- É só ouvir o vosso atendedor automático enquanto esperamos, mas posso desde já adiantar que nada tenho a ver com direitos de transmissão de jogos do Mundial. Pago um serviço e não me parece que esse pagamento dê à Cabovisão o direito de se eximir aos deveres contratados. O contrato é omisso quanto ao assunto.
Mais silêncio do outro lado, parece que estou mesmo a fazer mossa, e isso dá gozo, eh eh.
- Sr. Fulano de Tal, em que mais posso ser útil?
Ena, esta do "em que mais" quererá dizer dizer que vai mesmo ser?
- Diga-me se vou receber a revista da Cabovisão em tempo útil (útil, util, útil, é só utilidade), é que se continuar a ser como nos outros meses e como já estamos a nove do mês, se eu a comprar ainda me vai ser de alguma utilidade!
- Pois deve haver algum extravio na sua caixa de correio e terei todo o gosto em enviar-lhe uma segunda via da mesma.
Esta da "segunda via da mesma" é o máximo. E a minha caixa de correio deve ter trezentas e vinte e cinco assoalhadas fora as casas-de-banho e o sótão sem contar com a cave e garagem para se perder lá a revista...
- Sim, concerteza, mande mas não se esqueça de mandar também uma segunda via da mesma aos meus vizinhos, pois desde há uns meses a esta parte que se vêm extraviando as revistas da Cabovisão também dentro das caixas de correio deles.
- Sr. Fulano de Tal, em que mais podemos ser úteis? (Espectacular!! Fenomenal!! Passou da 1ª pessoa do singular para a 1ª do plural!!! do "posso" para o "podemos". Lá se está o treino a ir por água abaixo).
- Era só isto. E não se esqueça que a guerra não é consigo mas com a empresa. Faça o favor de dizer a alguém seu superior com responsabilidades na empresa que o vosso serviço está uma porra.