terça-feira, 31 de agosto de 2004

Apetece-me dizer mal deles....

É triste mas é verdade. Apetece-me dizer mal deles. A tristeza não é o que me apetece, o triste (triste triste triste) é a classe de jornalistas (???) que pululam pelas televisões cá da terra, sejam elas públicas ou privadas. Já algum dos amigos que me estão a ler se deu a trabalho de ouvir (mas com ouvidos de ouvir) um telejornal?
Caros amigos e amigas do pêto, se querem ser cultos têm de se dar ao trabalho de saber identificar as várias escolas/estilos de jornalismo que estes canudeiros representam (inventei uma nova: canudeiro=gajo ou gaja que obteve um canudo através duma monumental colecção de cábulas). Vão ver que não custa muito, basta três dias seguidos de telejornal, com a vantagem de ser um curso ministrado à distância, em que vocês escolhem o horário (hora de almoço, hora de jantar, ou antes do xixi-cama). Nem têm de se preocupar com numerus clausus. E tanto podem ir para a pública como para a privada...
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Escola do mazondékéutô?
O dito cujo posta-se com as costas viradas para o objecto (vá lááá... objecto aqui não é isso que estão a pensar), se possível de maneira a que o vento dê do lado contrário ao risco do cabelo (que é pra levantar, porque fica muita beeeemmm).
Como já devem ter percebido, a reportagem começa sempre com um "Estamos aqui junto à ponte...", "Estamos aqui em frente ao parlamento...", "Estamos aqui na Praça da Figueira...".
O gajo deve pensar que a gente não sabe que ele está ali. Ainda estou (aqui) à espera de ver um qualquer miúdo desses do microfone na mão, prantado na Praça do Comércio : "Estamos ali noTerreiro do Paço...", ou então "Como já devem ter visto, estou ali debaixo da 5ª pata do cavalo do D. José...". Caricato...
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Escola do digameçóamim
A menina (nestes casos costuma ser uma) coloca-se estrategicamente à porta do tribunal e no momento em que o arguido, na primeira de 27 sessões para apuramento de responsabilidade, passa por perto, dispara-lhe à queima roupa: "Porque é que deu quatrocentas e vinte e seis facadas na sua sogra?". Repare-se bem: ainda o pobre é apenas acusado, nem se sabe se tem culpas no "cartório", e já a fulaninha está a pôr-lhe a corda à roda do papo...
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Escola do emplastroleãoaliviaqualquerdor também conhecida por voltaFreudketásperdoado
Também costuma ser uma jornalista (???). Normalmente é em casos de presumível corrupção e acontece em corredores de tribunais. A fera amaga-se entre os colegas de profissão, e no momento em que o réu sai da sala de audiências e a porta desta se fecha, tá fêto com ela: não podendo voltar para trás porque a porta se fechou avança pelo corredor enquanto o seu causídico tenta a todo o custo evitar que os predadores lhe mordam as canelas. É então que a dita bicha caçadêra , que tinha estado escondida atrás dos colegas de regabofe, salta para a frente e, de microfone em riste, quer mostrar que estudou Freud e entra numa de psicanálise: "Não lhe dói a consciência?"
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Escola do tenskapôr, tenskapôr, tenskapôr (a grande Hermínia Silva cantava uma paródia à "Casa da Mariquinhas": a Mariquinhas tinha-lhe dado uma colcha para ela pôr na cama mas a Hermínia nunca mais a punha...)
Já o pobre desinfeliz tá farto de responder à mesma coisa da mesma maneira, e o canudêro com aquela coisa quase enfiada na boca do pobre "Mas você disse numa entrevista que... e blá blá..." . A querer meter-lhe coisas na boca, pois então...
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Escola do boaboa!vamuzaverumalquefizemos
Se não é um dos estilos mais importantes do jornalismo televisivo português, então não sei o que diga.
Um gajo pega na camera, e convida um amigo pra carregar com os projectores, mais um ou dois pra pegar no reflector, e aí vamos pra casa da velhota, com o mais fotogénico da pandilha a pegar no micro.
Não vou dizer como é, nesta altura do campeonato basta relatar-vos um caso verídico e vocês topam logo o estilo. Lembram-se do triste caso da ponte de Entre-os-Rios? Quando caíu a ponte e o autocarro cheio de gente foi levado pela correnteza? Pois mal o desastre acontecera e logo uma catrefada de autênticos abutres entrava pelas casas das pessoas a quem a dôr tirava as forças para resistir a qualquer tipo de estupidez. Eis senão que, nem 24 horas passaram do desastre nem tampouco aparecera qualquer vítima ou cadáver, um rucinho de olhos azuis que mais parecia uma osga malparida chega-se ao pé da presumível viúva do motorista do autocarro e escarra-lhe pra cima :"Como é que se sentiu quando ouviu as notícias?".
Não sei bem porquê, mas acho que naquela situação um familiar da mulher deveria ter atirado com uma cadeira aos apêndices cranianos da alimária devolvendo-lhe a pergunta "Diga-me lá vossa excelência: como se sente agora?".
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Escola do kemmandákiçoueu!
O pobre desinfeliz é convocado para esclarecer qualquer aspecto da notícia, ou mesmo para dizer de sua razão, e toma lá na mona que é pra da próxima vez saberes que "eu pergunto e tutázakimastás de boca fechada!".
Tem sido um estilo amplamente cultivado na TVI por Manela Boca Guedes....
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Escola da Cicciolina
Presente em qualquer telejornal de qualquer canal. Sem apelo nem agravo a pérola da música na informação, a prova provada de que estes miúdos e miúdas gostam tanto do que fazem que atingem o sétimo céu quando trabalham. Reparem só neste exemplo: a rapariga, com aquela coisa coisa à frente da boca (lá estão vocês de novo, aquela coisa é o mi-cro-fo-ne!) começa a relatar "Foi então que âhhhnnn, o presidente da junta âhhhnnn pediu ao âhhhnnn presidente da câmara que âhhhnnn lhe cedesse uns terrenos para âhhhnnn a contrução do gimnodesportivo". Um verdadeiro pitéu, o estilo cicciolina. Podiam era variar, de vez em quando uns ah!s e uns oh!s também não ficariam nada mal...

4 comentários:

Anonymous disse...

Palavras para quê????? Continuas imparável com essa "subtileza" inteligente na escrita..., mas atenção, temos cá bons jornalistas! Mas estes comentários não deixam de ter o seu fundamento, apesar de generalizarem...

Jorge M.

Pulo do Lobo disse...

Pois eu gostei imenso. Primeiro pela qualidade da escrita e depois porque finalmente alguém critica o pessoal da televisão, que quase toda a minha gente acha que são umas estrelas, intocáveis, os grandes jornalistas...quem não tiver lugar na TV não é bom jornalista...enganem-se. Adorei.

Caiadora-Mor disse...

ahahahahaha! Tem o seu quê de verdade, este autêntico tratado sobre os telejornalistas...

Sonho Meu disse...

lollollollol...farto-me de rir com os teus textos. Gosto particularmente da versão Cicciolina, com aqueles haammm, e nhhmmmm's à mistura, mas sim faz parte do nervosismo natural de quem tem que entrar em directo, sem rede e sem teleponto, na casa de milhares de portugueses para contar uma história. Acho que o telejornalismos anda pelas ruas da amargura, mas ainda vejo telejornais. Só me recuso é a fazer zaping para a TVI entre as 20 e as 21.30 ... é mau de mais.